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O novo número 1

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É oficial. O tênis do Brasil tem um novo número 1. Nesta segunda-feira,  a esperada ultrapassagem de João Souza, o Feijão, sobre Thomaz Bellucci foi enfim consumada no ranking divulgado pela ATP. O paulista de Mogi das Cruzes ganhou mais duas posições e atingiu a melhor colocação da carreira, 75, mesmo sem jogar na última semana. Nem “precisava”. Com a derrota precoce no ATP de Buenos Aires, para o italiano Paolo Lorenzi, logo na estreia – a terceira consecutiva em primeiras rodadas, após as quedas no Brasil Open e no Rio Open – Bellucci despencou 16 posições. É agora o 83 da lista. A diferença entre os dois é de 55 pontos.

A inversão interfere diretamente no duelo entre Brasil e Argentina pela Copa Davis, a partir de sexta-feira, em Buenos Aires, pela primeira rodada do Grupo Mundial. Como 2 do país, Bellucci irá enfrentar o número 1 argentino, Leonardo Mayer, logo no primeiro jogo da sexta-feira.  Se o sábado terminar com o placar de 2 a 1 para a Argentina, caberá a Feijão definir a sorte do Brasil no primeiro jogo do domingo. Bellucci só volta a entrar em ação num eventual quinto jogo. É um cenário bem distinto em relação aos últimos anos.

Primeiro porque Feijão não vinha sequer fazendo parte da equipe. Em outubro do ano passado, por sinal, sua ausência em detrimento a Rogério Dutra Silva para o confronto diante da Espanha gerou polêmica. Na época, o momento de Feijão, então número 2 do Brasil no ranking, já era bem melhor que o de Rogerinho. O capitão João Zwestch apostou no último por uma questão de confiança. Leia-se, o reconhecimento à contribuição de Rogerinho nos confrontos anteriores. Acabou salvo por Thomaz Bellucci, um gigante na dramática vitória brasileira, em que Rogerinho apresentou um nível bem aquém do esperado.

O ranking reflete a ótima fase de Feijão. O novo número 1 do Brasil chega a Buenos Aires no melhor momento da carreira. Aos 26 anos, é apenas alguns meses mais jovem que Bellucci. A impressão, no entanto, é que seu melhor momento ainda está por vir. O mesmo já foi dito muitas vezes em relação a Bellucci, mas a cada derrota frustrante, o ponto de interrogação aumenta. Principalmente porque Thomaz já chegou a ser 21 do ranking, já conquistou 3 títulos de nível ATP, já venceu estrelas como Andy Murray, Tomas Berdych e David Ferrer, já endureceu jogos contra Novak Djokovic e Roger Federer (o qual também chegou a vencer numa exibição em São Paulo).

A perda do posto de número 1 do Brasil não é inédita para Bellucci, desde que se firmou como principal tenista do país. Em fevereiro do ano passado, Feijão apareceu à sua frente no ranking pela primeira vez. Na ocasião, entretanto, Thomaz ainda se recuperava de uma séria lesão, que o fez despencar no ranking para bem além do top 100. Naquele momento, Feijão ultrapassou-lhe, mas também permaneceu fora do top 100. Desta vez é diferente.

Pela primeira vez, Feijão assume a condição de número 1 do país de maneira reconhecida. Porque é de fato o melhor tenista do Brasil em atividade. Basta olhar a Corrida dos Campeões, o ranking que contabiliza apenas os resultados do ano e serve de classificação para o ATP Finals, o último torneio da temporada destino à nata do tênis. Na semana passada, João Souza apareceu no 34° lugar. Esta semana, é o 42°. Está à frente de todos os argentinos escalados para a Davis. Mayer é o 46°, Schwartzman, o 62°, Delbonis, o 67° e Berloc, o 83°. Derrotado por Rafael Nadal na final do ATP de Buenos Aires, no último domingo, Juan Monaco – excluído pelo capitão argentino na Davis, Daniel Orsanic – é o único à frente de Feijão, no 38° lugar.

A ascensão de João Souza pode ser muito positiva para Bellucci. Com foco dividido, talvez, Thomaz administre melhor a pressão. Uma boa dose de “esquecimento” às vezes faz bem. E depois das boas campanhas nas últimas semanas – semifinais no Brasil Open e quartas no Rio Open – Feijão herdou a camisa 10.

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Realidade aos 18 e as surpresas da semana

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Está tatuado logo abaixo do bíceps esquerdo do croata Borna Coric: “There is nothing worse in life than being ordinary”.

“Não há nada pior na vida do que ser comum”

Com apenas 18 anos e três meses, ele dá sentido à frase. Mostra-se um diferente no circuito mundial de tênis. Ano passado, aos 17 anos, já havia espantado ao eliminar Rafael Nadal nas quartas de final do ATP 500 de Basel. Nesta quinta-feira, atropelou Andy Murray (6/1, 6/3) e se meteu nas semifinais do ATP 500 em Dubai. Seu próximo adversário é Roger Federer.

O resultado de Coric nesta quinta-feira foi a segunda grande surpresa da semana.

Horas antes, na noite de terça-feira, o norte-americano Ryan Harisson frustrou a defesa do título do búlgaro Grigor Dimitrov no ATP 500 de Acapulco. A vitória por 7/5, 4/6 e 6/0 contradisse o ranking. Aos 22 anos, o americano é apenas o número 169 do mundo, enquanto aos 23, Dimitrov, o namorado de Sharapova, fecha o top 10 e é considerado um dos três grandes nomes da nova geração, ao lado do japonês Kei Nishikori e do canadense Milos Raonic, outros dois integrantes do top 10.

Quando tinha mais ou menos a idade de Coric, um dos dois maiores expoentes da novíssima geração, ao lado do australiano Nick Kyrgios Harisson, 37 do ranking aos 19 anos, Harisson chegou a ser tratado como a grande promessa do tênis dos Estados Unidos. Em 2012, aos 19, fez três semifinais de ATP e atingiu o melhor ranking da carreira: 43.  A queda de rendimento teve seu ápice em 2014, quando começou a temporada como 99 do mundo, chegou a ser o 197 e terminou como169. Uma temporada em que não conseguiu avançar à terceira rodada em nenhum torneio de nível ATP: os melhores resultados foram duas quartas de final em challengers.

Mas a vitória sobre Dimitrov não veio do nada. O ano de 2015 começou diferente para Harisson. Logo na primeira semana, foi campeão no challenger de Happy Valley, na Austrália, onde derrotou o experiente Marcos Baghdatis na decisão. Depois de alguns maus resultados – eliminação na primeira rodada do quali do Australian Open e nas primeiras rodadas de dois challengers -, Ryan voltou a mostrar evolução no ATP 250 de Memphis, onde furou o quali, passou da primeira rodada e conseguiu fazer um jogo duro com Key Nishikori nas oitavas de final: 6/3, 3/6 e 4/6. Ter tirado um set do número 5 do ranking certamente significou muito no sentido de recuperar a confiança. Nas quartas de final, Harisson terá outra pedreira pela frente: o croata Ivo Karlovic. Aos 35 anos, o 23 do ranking. Campeão do ATP 250 de de Delray Beach na semana passada. Karlovic, compatriota de Coric, 17 anos mais velho. Certamente um exemplo para o caçula da equipe croata na Copa Davis.

Karlovic, Marin Cilic, Goran Ivanisevic, Mario Anci, todos os grandes nomes do tênis croata apostam em um futuro promissor para Coric. Como indica a tatuagem, o garoto é abusado. Pouco tempo depois da vitória sobre Nadal, ele se autoavaliou como o melhor tenista de sua geração. Ex-número 1 do mundo juvenil, antes de dar o salto de reconhecimento com o triunfo sobre Nadal, Coric já chamava a atenção. Começou 2014 fora do top 300 e, em abril, era apenas o 295, quando fez um jogo de cinco sets contra o polonês Jerzy Janowicz (21), pela Copa Davis. No decorrer de 2014, venceria dois jogos na chave do ATP de Umag, furaria o quali e chegaria à segunda rodada do US Open, venceria um challenger na Turquia e atingiria às semifinais no ATP 500 de Basel. Muito para seus 17 anos. Antes dele, só Nadal havia chegada tão longe com tão pouca idade no torneio de Basel. Em 2006, o espanhol foi campeão com 19 anos. A ascensão de Coric pode ser comprovada no ranking. Quem começou o ano fora do top 300 terminou 2014 como o número 102. Na primeira semana de 2015, entrou no top 100 pela primeira vez. Ao que parece, um caminho sem volta.

É cada vez mais raro ver jovens tenistas brilharem. Nos últimos anos, uma nova realidade tem apresentado o tênis como um esporte tardio. Para a maioria dos tenistas, o auge tem chegado aos 28, 29, 30 e até depois dos 30 anos. Num passado não tão distante, a proximidade dos 30 era visto como fim de carreira. Este ano, de forma emblemática, o dominicano Victor Estrella Burgos tornou-se o mais velho tenista a conquistar o primeiro título de ATP, aos 34 anos, em Quito. Borna Coric vai na contramão da atual tendência e nos faz lembrar gênios precoces como Rafael Nadal, Boris Becker, Martina Hings e uma cia. para lá de seleta.

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Por que Nadal não ganhou o Rio Open

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Há um fator que ajuda a entender o primeiro fracasso de Rafael Nadal em solo brasileiro. A rainha do tênis nacional, Maria Esther Bueno, já havia alertado numa das transmissões do Sportv. Ela chamou atenção para o movimento do saque do espanhol. Na percepção de Maria Esther, desde o retorno ao circuito, no início do ano, após o afastamento por lesão nos últimos meses da temporada passada, Nadal tem mostrado um serviço diferente. Diferente para pior.

De fato, o movimento parece meio travado. Não flui. Os números atestam a observação da comentarista.

Na campanha de defesa do título do Rio Open, o espanhol sofreu sequências de quebras incomuns. Logo na estreia, foram duas consecutivas contra Thomaz Bellucci no primeiro set. Já era um sinal. Embora tenha perdido o serviço apenas uma vez na segunda rodada, diante do compatriota Pablo Carreno-Busta, Nadal voltou a expor a deficiência nas quartas de final, contra o uruguaio Pablo Cuevas. Foram duas quebras determinantes para a derrota no primeiro set. Mas o pior ainda estava por vir. Na semifinal contra o italiano Fabio Fognini, depois de vencer o primeiro set e sair na frente no segundo, o espanhol entrou em colapso. Muito devido ao serviço completamente vulnerável. Foram quatro quebras consecutivas! Não me lembro de nenhuma outra situação parecida na carreira dele.

Quase que de maneira simbólica, a derrota veio com outra quebra. No 12º game do terceiro set, Fognini fechou em 5/7. Claro que o saque não foi o único motivo da eliminação. Durante toda a semana no Rio de Janeiro, Nadal, em nenhum instante, mostrou regularidade em alto nível. Oscilou bons e maus momentos, esteve inconstante. Ainda assim, seguia como favorito absoluto ao bicampeonato. Porque por mais difícil que se apresente o cenário, ele sempre arruma uma maneira de vencer. Sobretudo no saibro. Se o tenista, claramente, estava longe dos melhores dias, o jogador mantinha-se firme como uma rocha. Por isso, achamos que daria um jeito de superar Fognini naquele terceiro set. Não foi o caso.

A derrota acende de vez o alerta. Sem o serviço afiado, Nadal não será capaz de vencer os tops. Se encontrou tamanhas dificuldades no saibro, imagine nas quadras duras, onde se passa a grande maioria do circuito. O saque é desde já um problemaço para ele resolver com o tio Toni. O novo teste já será nesta semana, no ATP 250 de Buenos Aires, para o qual retorna 10 anos depois. Em 2005, aos 18 anos, antes de ganhar o primeiro troféu em Roland Garros, ele era apenas o 48 do ranking quando foi eliminado por Gaston Gaudio, nas quartas de final.

Ferrer não perdoa

David Ferrrer não costuma vacilar. O atual número 9 do ranking, que já foi terceiro colocado, é conhecido por fazer de um limão uma limonada. É um dos jogadores mais competitivos do circuito, mesmo sem um tênis de golpes ultra-espetaculares. Em tese, não teria jogo para tanto (foi top 3!). Na prática, trata-se de um jogador praticamente infalível que consegue supervalorizar as próprias armas.

Por isso, bastou Nadal abrir a porta para ele entrar. Freguês de carteirinha do compatriota, Ferrer tem muito a agradecer a Fabio Fognini. Por mais instável, Rafa, numa final, certamente seria uma barreira para ele. Com a surpreendente vitória do italiano na semifinal, Ferrer viu a chance de título cair no seu colo. E, quem se acostumou a sofrer na mão do Big Four (Djokovic, Federer, Nadal e Murray) não deixaria passar tamanha oportunidade. A última derrota como favorito foi em setembro do ano passado, na primeira rodada do ATP 500 de Tóquio, para o compatriota Marcel Granollers. De lá para cá, já são 29 jogos de extrema regularidade.

Na decisão no Jockey Club do Rio de Janeiro, David não deu qualquer chance a Fognini: 6/2 e 6/3. Foi o 23º título em sua carreira, o segundo do ano (surpreendeu em Doha), o 12º no saibro. Aos 32, estava visivelmente emocionado. No discurso, muito bacana, por sinal, chegou a dizer que não sabe se voltará a levantar outro troféu. Modéstia. O baixinho de 1,75 m, coração gigante e pernas infinitas ainda tem muita lenha para queimar.

Buenos Aires

Ao contrário de Nadal, Ferrer estará no ATP 500 de Acapulco esta semana, que trocou o saibro pelas quadras duras. Devido ao choque de datas do atual calendário, não poderá defender o tricampeonato consecutivo em Buenos Aires. Na capital argentina, Thomaz Bellucci estreia nesta segunda-feira contra o italiano Paolo Lorenzi. Após duas vitórias no quali, o cearense Thiago Monteiro tenta a vaga chave diante do favorito Facundo Bagnis. Clezar e Rogerinho foram eliminados no quali.

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O dia sem fim

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Havia muita expectativa sobre a sexta-feira. Com a chance de avançar às semifinais do Rio Open tanto na chave masculina como na feminina, o tênis nacional surgiu com força nas redes sociais e cavou espaço nobre nos principais portais esportivos do país. A certa altura do dia, a chamada principal do GloboEsporte.com foi dedicada ao acompanhamento em tempo real do jogo de João Souza, o Feijão. Coisa rara.

Mas isso já foi lá pelo meio da tarde. Bem antes, o dia começou intenso. Ao meio-dia, Bia Haddad Maia, o maior prodígio do tênis brasileiro, com apenas 18 anos, entrou em quadra para encarar o maior desafio de sua ainda breve carreira. A adversária era ninguém menos que a italiana Sara Errani. Ex-número 5 do ranking e atual 16. Vice-campeão de Roland Garros em 2012. Dona de sete títulos e 9 finais no circuito de elite da WTA. Não é pouca coisa.

Acontece que em sua primeira grande semana como tenista profissional, a brasileira não vinha dando chance às adversárias. Os dois primeiros jogos já tinham chamado a atenção pela facilidade das vitórias: duplo 6/1 sobre a argentina María Irigoyen, 6/1 e 6/2 sobre a eslovaca Polona Hercog. Uma facilidade que surpreendeu a própria Bia, como revelou numa das entrevistas coletivas concedidas no Rio. Sobretudo pela condição das adversárias, bem mais experientes e melhores colocadas no ranking.

Em termos de ranking, porém, a diferença em relação às duas primeiras oponentes não se comparava ao abismo que ainda separa Bia de Errani. Mas as 218 posições sumiram dentro da quadra central do Jockey Club do Rio de Janeiro no início do jogo. O ranking parecia invertido. Uma desavisado acharia que Bia era a 16 do mundo, e Sara Errani, a 234. Impiedosa, exatamente como nas duas primeiras rodadas, a paulista abriu 4/0! Um choque.

Depois, Errani entrou no jogo e conseguiu dramatizar o desfecho da parcial, muito comemorado por Bia, que anotou 6/3. A tática da italiana era angular as bolas para balançar a brasileira, cuja movimentação não é o ponto forte, devido à estatura privilegiada. Em compensação, o peso de bola da nossa menina é coisa rara dentro do circuito feminino. Com a bola na mão, Bia machucou muito Errani, cujo saque é uma lástima, mas depois precisou ser mentalmente forte para manter o jogo equilibrado.

Com Errani “dentro do jogo”, o segundo set prometia. E depois de muitas quebras, foram sete consecutivas dos dois lados, Bia enfim conseguiu confirmar o serviço para abrir 5/3 e jogar toda a pressão para a rival. Que chegou a salvar dois match points e levantar um 15/40, devolvendo toda a pressão para o outro lado da quadra.

Bia precisaria ter nervos de aço para sacar no 5/4. Mas cometeu três erros não forçados, perdeu o ponto seguinte e teve o serviço quebrado: 5/5. Então… nova quebra! A brasileira respirou fundo, esqueceu dos match points e venceu outro game no serviço da italiana. 6/5. No game seguinte, a contagem regressiva iniciou-se outra vez. No 15 iguais, faltavam três pontos. Aí veio o 15/30. O 30 iguais. E eram só mais dois pontinhos. Bia chegou a ter mais um match point, mas desperdiçou e depois de salvar incontáveis break points, cedeu a quebra.

Tiebreak.

Errani abriu 4-1 e o set parecia ir embora. Parecia não, foi. A italiana fechou em 7-2.

Paralisação.

Em virtude do calor de quase 40 graus dentro da quadra, as duas tiveram direito a 10 minutos de descanso. Na volta, o jogo já era outro. Errani quebrou o serviço da brasileira logo de cara, e aquele início arrasador parecia cada vez mais uma miragem distante. Não demorou para perceber que Bia não estava legal. Com o passar dos pontos, nossa menina começou a se arrastar em quadra. Queria, mas não podia. O esgotamento físico e psicológico se revelou da pior forma. As cãibras não a deixaram lutar até o fim.

Ela chegou a sacar em meio a lágrimas. Chorou em quadra e comoveu a todos. Quando perdia por 0/3, entregou a partida. Foram imagens fortes, de cortar o coração. Bia recebeu o cumprimento de Errani deitada sobre o saibro, enquanto era atendida. Foi afagada dentro e fora de quadra pela italiana. Na entrevista coletiva, a ex-top 10 destacou todo o potencial da brasileira. Previu um futuro promissor, para quem aos 18 anos ainda só inicia a caminhada. Bia que correu sério risco de ficar numa cadeira de rodas, há menos de dois anos. O blog Saque e Voleio, do portal UOL, contou o drama revelado em detalhes pela própria Bia, dias atrás, no Rio de Janeiro.

Apesar do gosto amargo da derrota, a brasileira demonstrou uma maturidade incomum para sua idade na entrevista pós-jogo. “Realmente eu pensei em ganhar o jogo, e isso não existe no tênis. É o próximo ponto. Se eu não ganhei foi por algum motivo. Acho que meu lugar está guardado. Sou nova, tenho muito que aprender e se não deu, é porque não era o momento.”

Mais dor

O dia ainda teria outro drama para o tênis brasileiro. Depois de perder o primeiro set no tiebreak, Feijão atropelou o austríaco Andres Haider-Maurer no segundo, 6/1, e encheu a torcida de esperança. O adversário, 74 do ranking, fora completamente dominado  naquele segundo momento do jogo. E o brasileiro entraria embalado no terceiro set. Não deu outra. A quebra logo no primeiro game abriu a porta da vitória para João Souza. Quando confirmou em seguida, e depois fez 3/1, já dava para sentir o gostinho da semifinal contra David Ferrer neste sábado.

Até que o sexto game chegou, para frustrar um sábado que tinha tudo para ser pra lá de animado. Primeiro, Feijão viu o adversário abrir 0/40. Depois, foi buscar. Saiu do buraco. Levantou o game, pensamos. Sobretudo quando conseguiu a vantagem, e ficou a um ponto de abrir 4/2. Nada feito. Quebrado, ele turbinou a confiança do austríaco. Depois de empatar o set, Haider-Maurer virou o placar para 4/3 e então fez o dever de casa até o 5/4. No caso de Feijão, 4/5. Como sabemos, sacar no 4/5 do terceiro, em uma melhor de três sets, é um dos cenários mais delicados. O brasileiro não resistiu à pressão. No 30 iguais, perdeu o ponto e cedeu o match point. Só bastou um mesmo para o austríaco encerrar a festa brasileira no Rio Open.

Interminável

Bruno Soares ainda seria eliminado nas semifinais da chave de duplas, ao lado do parceiro austríaco Alexander Peya. Um dia interminável em que que Rafael Nadal só entraria em quadra à 1h da manhã! Sairia depois das 3h, após eliminar o uruguaio Pablo Cuevas, de virada, no terceiro set. Irritadíssimo, Cuevas fez papelão. No último set, ao se ver diante de um inevitável pneu, entregou de propósito os pontos finais. Saiu de quadra vaiado. Xingado, xingou de volta. Enquanto isso, às 3h30, por mais contrariado que tivesse – “jamais se deveria jogar uma partida de tênis a essa hora” – Rafael Nadal pacientemente atendia os fãs. Às 3h30 da manhã! Oficialmente já era sábado, mas pode-se dizer que a sexta-feira não terminou. Continuou, sábado adentro. O dia sem fim vai ficar para sempre em nossa memória.

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Um ponto, um erro e um jogo inesquecível

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No tiebreak do segundo set, Feijão já havia salvado três set points consecutivos.

Saiu de um 3-6.

Na sequência, desperdiçou dois match points.

Aquela era a terceira chance de matar o jogo e se garantir nas quartas de final de um ATP 500, o Rio Open, pela primeira vez na carreira.

Nenhuma chance havia sido tão clara.

A bolinha flutuou mansa de um lado a outro da quadra.

Na altura ideal.

Enquanto viajava, a torcida já se preparava para soltar o grito de gol.

O burburinho ecoou na quadra central do Jockey Club do Rio de Janeiro.

Mas Feijão falhou.

“Era voleio mais fácil do mundo, se não fosse match-point, ia bater cruzado e entrava”, brincou, logo após a partida, segundo relato do site Tênis Brasil.

Feijão não perdera só mais um match point. Perderia também o tiebrek e o segundo set.

Perderia a confiança, supomos.

“Na hora que eu sentei, sabia que ou eu pensava no voleio ou jogava”

Eu teria pensado no voleio.

Ainda bem que não sou Feijão, nem represento o Brasil no circuito.

Deve ter sido muito difícil apagar da mente.

João Souza, o Feijão, teve a capacidade.

Surpreendentemente, diria.

Ou nem tanto.

Feijão tem se mostrado uma fortaleza nas duas últimas semanas.

Entre tantos momentos de frieza e superação, a exceção continua a ser a fraquejada na semifinal do Brasil Open, quando chegou a ter 4/3 e 40/15 contra o italiano Luca Vanni, mas tomou a virada e perdeu a chance de disputar a primeira final de ATP.

Ressalva feita, o Feijão do terceiro set foi o mesmo tenista vibrante, agressivo e preciso dos últimos dias.

Chegou a estar uma quebra atrás, viu o adversário abrir 4/3 e sacar para o 5/3, mas devolveu a quebra logo em seguida.

Para enlouquecer a torcida.

Não havia mais como segurá-lo.

Foi a primeira vitória sobre o esloveno Blaz Rola, 92 do ranking, em quatro jogos.

Após três horas de batalha, 6/4, 6/7 (9) e 6/4.

No fim, o choro de mamãe Feijão nas arquibancadas era o resumo fiel do misto de alívio e alegria que tomou conta do torcedor brasileiro que é fã de tênis.

De quebra, Feijão, o próximo número 1 do Brasil, chega com boas chances às quartas de final do Rio Open.

O adversário nesta sexta-feira será o austríaco Andreas Haider-Maurer, 74 do ranking, algoz do espanhol Tommy Robredo nas oitavas.

Quem sabe…

Semifinal contra David Ferrer no sábado!

 

* A foto do post é uma cortesia do site oficial do Rio Open.

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Boas e má notícias para o Brasil no Rio Open

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O segundo dia de chave principal no Rio Open trouxe boas e más notícias para o tênis brasileiro. Comecemos pelas boas. E elas vão muito além das vitórias arrasadoras de João Souza, o Feijão, e Bia Hadad Maia. Que, coincidentemente, atropelaram adversários que jamais haviam vencido. Coincidentemente, dois argentinos. Feijão aplicou 6/2 e 6/1 em Facundo Arguello, o primeiro triunfo em cinco duelos entre eles, confirmando o melhor ranking e o melhor momento. Bia impôs um duplo 6/1 a María Irigoyen. Nove anos mais velha, a adversária havia vencido os dois jogos anteriores. Os resultados em si, porém, apenas simbolizam a ideia central deste texto: atentar para a perspectiva de futuro dos dois nomes mais promissores do tênis brasileiro neste momento. No caso de Feijão, um futuro mais próximo.

O adjetivo “promissor” pode até soar estranho para um tenista de 26 anos. Mas ciente de que o tênis tem ficado cada vez mais tardio, a impressão é que Feijão – só agora – parece pronto a dar um novo e definitivo salto na carreira. Livrar-se do circuito de challengers e focar de vez nos ATPs. A autoridade com que superou Arguello chamou a atenção. Foi um jogo praticamente perfeito do número 2 do Brasil, embaladíssimo após a boa campanha no Brasil Open, semana passada, quando esteve muito perto de fazer a primeira final de ATP da carreira.

“Estou mais magro, mais leve, mais ágil, mais maduro”, disse Feijão em entrevista a Dacio Campos, no SporTV. A declaração é interessante, sobretudo porque a movimentação sempre foi um de seus calos. Desde o meio do ano passado, ele adotou a famosa dieta sem glúten que consagrou Novak Djkovic. Próximo ao melhor ranking da carreira (84), parece consenso que o paulista de Mogi das Cruzes (atualmente 88) tem jogado seu melhor tênis. Não por acaso, irá desbancar Thomaz Bellucci do posto de número 1 do país.

Eliminado na primeira rodada em 2014, Feijão já somou 45 pontos nesta edição do Rio Open. Nas oitavas de final, encara o esloveno Blaz Rola. Um adversário bem ganhável, apesar do retrospecto negativo de três derrotas em três jogos. Se chegar às quartas, João Souza somará mais 45 pontos, ao passo que Bellucci irá perder os 90 referentes às quartas de final de 2014, além dos outros 90 das semifinais do Brasil Open do ano passado, ainda não descontados devido à mudança no calendário. Hoje, a diferença entre os dois é de 195 pontos. Com os 180 a menos de Bellucci, já cairia para 15. O que já garante a ultrapassagem de Feijão, com os 45 somados na primeira rodada. Com isso, o pupilo de Ricardo Acioly tem tudo para chegar ao duelo da Davis, contra a Argentina, no início de março, como jogador número 1 do Brasil.

A LONGO PRAZO - Aos 18 anos, Bia Maia ainda não é uma realidade. Mas já demonstra que a posição 234 no ranking da WTA não é compatível ao seu potencial. Com as armas que tem, um peso de bola capaz de destroçar uma adversária como Irigoyen, que no início do mês esteve perto de tirar um set de Serena Williams na Fed Cup, a brasileira mais promissora do circuito dá motivos para se crer num futuro de sucesso. Depois de um 2014 marcado por uma grave lesão (a própria Bia chegou a imaginar que jamais poderia voltar a jogar), vê-la fazer um jogo como o da última terça-feira foi pra lá de animador. Ainda que as condições no Rio, com quadra de saibro pesada, não sejam as mais compatíveis para o estilo de Bia, não se deve subestimar a possibilidade de uma boa campanha. A eslovena Hercog, cabeça de chave 7, será a adversária nas oitavas de final.

O segundo dia do Rio Open ainda teve as vitórias nas duplas de Bruno Soares, ao lado do austríaco Alexander Peya, e da parceria cada vez mais bem sucedida entre Feijão e André Sá. Na chave feminina, Paula Gonçalves foi eliminada na estreia. Assim como a número 1 do Brasil, Teliana Pereira. Superada pela cabeça de chave 1, a italiana Sara Errani, por duplo 6/3.

BELLUCCI - Mas a má notícia à que se refere o título do post tem a ver com outra derrota. Mais uma de Thomaz Bellucci. Obviamente, não pelo resultado em si. Afinal de contas, Rafael Nadal estava do outro lado da rede. Na mesma linha de análise em relação a Feijão e Bia, a avaliação de “má notícia” no caso de Thomaz está além do jogo da noite de terça-feira. Que apenas repetiu um velho filme. Chances desperdiçadas, inconstância mental acima da média, a postura “entregue” de sempre quando as coisas dão errado.

Ao contrário do caso de Feijão, por exemplo, não se vê qualquer evolução no Bellucci de 2015. Aos 27 anos, o ainda número 1 do Brasil retomou a parceria com o técnico João Zwestch, capitão brasileiro na Davis, mas pelo menos por ora tem sido o mesmo jogador dos últimos anos. O início de temporada tem bons momentos, sim, mas é repleto de frustrações: o apagão diante de David Ferrer, depois de vencer o primeiro set, na primeira rodada do Australian Open, quando perdeu 12 games em sequência; o frustrante game contra Estrella na semifinal do ATP de Quito, quando sacou com 5/5 depois de quebrar o adversário e cometeu uma série de duplas faltas; a derrota para Klizan na primeira rodada do Brasil Open, em que chegou a estar vencendo o terceiro set por 5/2 e desperdiçou dois match points quando sacava com 5/3.

O jogo contra Nadal era uma excelente chance. Sobretudo no primeiro set, o espanhol esteve longe, muito longe do seu melhor nível. Algo até certo ponto previsto, inclusive pelo próprio Bellucci, por se tratar de uma primeira rodada – Nadal é o típico tenista que costuma engrenar durante os torneios.

No quinto game do primeiro set, Bellucci “aprontou” pela primeira vez. Depois de sair de um 0/40, chegou a salvar outros dois breakpoints, mas entregou o game de serviço com uma dupla falta! Era a primeira quebra do jogo. A partir de então, seriam mais três quebras em sequência. Bellucci quebrou logo em seguida, Nadal devolveu, Bellucci quebrou de novo em seguida, e por fim, Nadal não se permitiu ser quebrado pela terceira vez consecutiva e fechou o set em 6/4. O brasileiro não pode reclamar de chances. Quando o placar marcava 4/4 e 30 iguais, ele teve uma bola mansa no T e, com a quadra aberta, mandou o forehand (logo o forehand!) no meio da rede. Imperdoável. Não é exagero dizer que aquele ponto pode muito bem ter custado o primeiro set.

No segundo, Bellucci chegou a abrir 40/0 no primeiro game. Na sequência, cedeu dois pontos. Quando foi sacar com 40/30, tuitamos: “Se perder esse ponto, pode ser o fim”. Não deu outra. 40 iguais, nova quebra e o resto do jogo foi só mera formalidade. Nadal já havia vencido. No fim, 6/1 e o gosto amargo. Não pela derrota em si, mas pela constatação de que os anos têm passado em vão para Thomaz Bellucci.

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Azar ou sorte?

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Rafael Nadal, logo ele, vai enfrentar Thomaz Bellucci na noite de terça-feira. Azar ou sorte do número 1 do Brasil no Rio Open? Fiz o mesmo questionamento depois do sorteio do Australian Open. Na ocasião, o nome de Bellucci caiu ao lado do de David Ferrer na primeira rodada.

A oportunidade de enfrentar um dos tops é quase um prêmio. Muitas vezes, reservado às rodadas finais. A pergunta é: qual seria a chance de Bellucci encontrar Nadal numa semifinal ou possível final no Rio Open? Pequena, tendo em vista o alto nível de uma chave de ATP 500.

Na entrevista coletiva concedida num shopping do Rio de Janeiro, local do sorteio do Rio Open, Bellucci ressaltou o sentido de privilégio. Jogar contra Nadal, no Brasil, será um momento inesquecível. O país estará de olho. O apelo, a exposição na mídia, o envolvimento de um público mais abrangente, para além da esfera tenística, tudo acerca fará dessa estreia um jogo mais que especial para o número 1 do país. 

Hay que disfrutarlo.

O Rio Open já começa com cara de final para Thomaz, que tem 90 pontos a defender pelas quartas de final do ano passado – olhando por esse ângulo, o azar foi gigante.

Há ainda outro fator. Como disse o próprio Bellucci, com outras palavras: se é para enfrentar um cara como Nadal, que seja na primeira rodada, quando o tenista ainda não está totalmente adaptado às condições do torneio. Depois que embala, um cara como Nadal fica praticamente imbatível.

As palavras de Bellucci:

“Isso tem seu lado bom e seu lado ruim. É um desafio jogar contra o Nadal. Lógico que gostaria de jogar contra ele em quartas de final ou semifinal. Mas peguei logo de cara. É uma oportunidade única de jogar contra o Nadal no Brasil. Vou dar meu máximo. Lógico que ele é favorito e vem motivado para ganhar de novo. Porém, nesses jogos de primeira rodada contra os tops, é geralmente quando não estão ainda muito dentro do torneio, estão ainda se preparando. É uma oportunidade de surpreender”.

As aspas foram retiradas da matéria publicada pelo globoesporte.com, que faz uma descrição interessante sobre a reação do brasileiro no momento do sorteio. Leia aqui.

A mesma lógica vale para Teliana Pereira. Número 1 do país, a pernambucana sofreu do mesmo mal e encara a cabeça de chave número 1 na estreia: a italiana Sara Errani.

Ainda sobre a chave masculina, os outros dois brasileiros garantidos levaram sorte. João Souza, o Feijão, e Guilherme Clezar enfrentam um adversário vindo do qualifying.

Bellucci e Nadal já se enfrentaram três vezes
A primeira em 2008, na primeira rodada de Roland Garros. Vitória do espanhol por 7/5 6/3 e 6/1
A segunda em 2010, nas oitavas de final de Roland Garros. Vitória do espanhol por 6/2 7/5 e 6/4
A terceira em 2012, na primeira rodada de Wimbledon. Vitória do espanhol por 7/6 (0) 6/3 e 6/1

Enquetinha

Será que o torcedor brasileiro vai ficar dividido? Afinal de contas, “perder” Nadal, a grande atração, logo na primeira rodada, não deixaria de ser algo frustrante para os fãs que irão ao Rio Open.

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A maior vitória de Feijão

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O relógio já passava das 22h. Último brasileiro sobrevivente na chave de simples do Brasil Open, João Souza, o Feijão, teria uma missão inédita na carreira: superar um top 40. Martin Klizan, 38 do mundo. No Ibirapuera, o pequeno público presente resistia. E sofria. Encerrado o primeiro set, foi impossível não voltar a lamentar a derrota de Bellucci.

Na terça-feira, o Brasil estivera a um ponto de pular as oitavas e se meter direto nas quartas de final. Bellucci chegou a ter 5/2 de vantagem contra o mesmo Klizan, no terceiro set. Depois, ainda desperdiçou dois match points quando sacou com 5/4. Tivesse vencido, garantiria um duelo 100% verde-amarelo. Horas antes, Feijão vencera o espanhol Pablo Carreno Busta, 56 do ranking, com autoridade: 6/2 e 7/6 (6).

Dois dias depois, Feijão não conseguia incomodar o adversário no saibro do Ibirapuera. Os erros não forçados contrastavam com a firmeza e o amplo arsenal de golpes que vinham do outro lado. As devoluções de Klizan machucavam. As curtinhas exploravam um dos buracos no jogo de Feijão: a movimentação. Ao arriscar, para tentar encurtar os pontos, o número 2 do Brasil parecia um suicida.

Fim da primeira parcial: 6/3.
E a sensação era de que o Brasil estava eliminado.

Aqueles dois match points de Bellucci na terça-feira martelavam. A diferença de patamar entre o número 38 e o 110 do ranking havia sido exposta naquele primeiro set. Do outro lado da rede, estava o atual campeão do ATP de Munique, algoz de Rafael Nadal nas quartas de final do ATP de Pequim no ano passado. Um tenista talentoso e inspirado, em um momento especial da carreira. Era questão de tempo. Feijão parecia de mãos atadas. Certo?

Segundo set.

Em vez dos match points de Bellucci, agora havia outro motivo a lamentar: três break points desperdiçados por Feijão logo no segundo game. Depois de confirmar o serviço, o brasileiro perdeu a grande chance. Teria outra?

Feijão poderia ter se deixado abater. É comum o tenista perder o foco depois de ver o adversário levantar um 0/40. Teoricamente, a gangorra voltava a pender a favor de Klizan. Mas o brasileiro tratou de confirmar o serviço de zero na sequência.

No game seguinte, a quebra. E o jogo já era outro.

Feijão se encheu de confiança e passou a dar as cartas. Era outro jogador: sólido, firme, vibrante. Klizan baixou a guarda. Também era outro jogador, completamente distinto daquele do primeiro set. Com um ace, especialidade da casa, Feijão devolveu o 6/3.

Soltou um berro, cerrou o punho e chamou a torcida.

A atmosfera era toda favorável. Não por acaso, Klizan pediu para ir ao banheiro ao fim do segundo set, repetindo o que Feijão havia feito na transição do primeiro para o segundo. O eslovaco pretendia esfriar o Ibirapuera, mas ironicamente faltou frieza a ele. Que começou a reclamar da torcida, discutir com o árbitro, responder provocações. Depois de acertar um backhand indefensável, mandou beijinhos aos torcedores.

A cabeça já estava longe. O eslovaco se impacientava e sucumbia nas trocas de bola. A vitória chamava Feijão.

A nova quebra do brasileiro foi comemorada como gol. Com 2/1 e saque, restaria confirmar os games de serviço. E foi assim até o 4/2.

Firme como uma rocha, Feijão não dava qualquer sinal de que pudesse repetir o roteiro de Bellucci. A segunda quebra deu ainda mais certeza. 5/2. O velho 5/2. O raio não cairia duas vezes no mesmo lugar para Martin Klizan. Quando sacou para fechar o jogo, João Souza, o Feijão, fechou.

Já era sexta-feira.

A imprensa especializada vendeu como a maior vitória da carreira do paulista, de 26 anos, cujos melhores resultados foram duas semifinais nos ATPs de Santiago em 2010 e Kitzbühel em 2011.

Nesta sexta-feira, ele encara o argentino Leonardo Mayer, 30 do ranking. Uma prévia do que poderemos ver em menos de um mês, na Copa Davis.

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Um parque de diversões e sofrimentos

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Uma montanha-russa.  Se existe uma forma de definir Thomaz Bellucci, esta talvez seja a que melhor traduza a inconstância do número 1 do Brasil em quadra. Constante inconsistência. Uma dualidade que o acompanha jogo a jogo, game a game, ponto a ponto.  E a campanha no ATP 250 de Quito tem sido uma síntese destes altos e baixos. Jogos que pareciam ganhos tornaram-se dramáticos. E quando a derrota parecia inevitável, se desfaz em vitória épica.

Bem-vindos ao Parque de Diversões (e sofrimentos) de Thomaz Bellucci.

Quito. 2.800 metros acima (muito acima) do nível do mar. Difícil para o corpo. Excelente para o saque. E este fundamento seria decisivo para a trajetória do número 1 do Brasil, que chegou ao Equador trazendo na bagagem duas derrotas em dois jogos na temporada. A última, diante de Ferrer, no Australian Open, reunindo momentos genais e grotescos. É verdade que todos estão acostumados. Mas, ainda assim, alguns são difíceis de digerir. Aquele apagão de 12 games consecutivos depois de ter vencido o 1º set e aberto 2/0 no segundo foi um destes.

Passou. Sempre passa. O tênis e o seu calendário intenso permite este ciclo infinito de expectativas, conquistas e frustrações. Para todos.

No saibro equatoriano, a montanha-russa chamada Bellucci expôs sua arquitetura mais radical. De gelar a espinha. De tirar o fôlego. Na estreia, Giovanni Lapentti surgiu como o adversário perfeito. Tinha o peso do sobrenome e a fragilidade do ranking. O irmão do ex-top 5 Nicolás, hoje é apenas o 307º do mundo aos 32 anos.  Primeiro set seguro. Segundo set traiçoeiro. Terceiro assustador. O brasileiro foi levemente displicente no segundo, permitindo que o set se arrastasse até o tiebreak, quando acabou sendo derrotado. No terceiro, quebra logo de início. Lapentti abriu 2/0 e fez com que a lamentação “não é possível” se multiplicasse entre os (não tão) poucos brasileiros que ouviam a partida na rádio ou acompanhavam nos sites de placar ao vivo. Um pneu de ré, como chamam, recolocou cada coisa em seu lugar.

Drama? Nada comparado ao que viria na segunda rodada. Depois de dominar o 1º set contra o argentino Horacio Zeballos, Thomaz permitiu uma quebra no início do segundo e viu, aos poucos, a partida se complicar. Outra quebra no início do terceiro set deixou o argentino com a vitória nas mãos. Zeballos teve o serviço para fechar o jogo. Sacava em 5/4. De um buraco profundo, a montanha-russa resolveu subir de novo. Quebra devolvida. Jogo no tiebreak e…

…Queda vertical.  O argentino abriu 6-3 no tiebreak. Três match points. Dois com seu saque. O final todos já sabem. Um looping levou o carrinho para o alto novamente. A reviravolta colocou Thomaz nas quartas de final. Pela frente o espanhol Albert Montañes, que eliminara o cabeça de chave 2 na fase anterior.

Foi, sem dúvida, a melhor atuação de Bellucci. Venceu fácil o primeiro set. E poderia ter sido muito mais fácil não fossem os muitos break points perdidos. No segundo, logo tinha uma quebra de vantagem e um duplo break point para conseguir a segunda e sacar para o jogo em 5/2. Montañes estava entregue. Cabisbaixo, irritado consigo mesmo, impotente diante de um Bellucci em dias de top 20. Agressivo, seguro, sacando muito bem. De repende, um errinho aqui, outro ali. E o espanhol salvou. No game seguinte, entre erros e acertos, foi quebrado.

…Queda livre. De novo. O 4/2 virou 4/5. O brasileiro até voltou rapidamente para o jogo, confirmou seus saques, mas a consequência inevitável foi o fortalecimento do rival. O tenista cabisbaixo de minutos atrás gritava e cerrava os punhos a cada ponto. Um tiebreak disputadíssimo convergiu para mais um final em looping. Bellucci sacou com 5-4. Precisava dos dois pontos para selar a vitória. Perdeu ambos. Quando o 3º set se anunciava, eis que Thomaz inicia uma série de três pontos irretocáveis. Terminou, claro, com um saque preciso e a devolução passando longe.

A câmera foca o sorriso aberto. O mesmo dos meninos quando saem de uma montanha-russa, depois de alguns minutos intercalando alívio e medo, euforia e desespero.

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Semifinal.

A primeira desde o Brasil Open do ano passado, quando caiu diante do argentino Federico Delbonis.

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Uma transmissão inesquecível

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Quem acompanha Thomaz Bellucci com atenção (ou seria devoção?) já se acostumou a sofrer. Em diversos formatos. O mais comum, é assistir aos jogos pela internet. Seja pelas transmissões ao vivo, em vídeo, os famosos streams, seja simplesmente pelo tradicional ponto a ponto (sem qualquer imagem). As aparições na TV são menos frequentes. E por isso mais nobres. Nestes tempos de internet, a televisão ainda é o meio capaz de reunir mais gente em torno de uma partida de Thomaz Bellucci. Sempre que a TV exibe do número 1 do país em ação, o reflexo é imediato nas redes sociais.

Na noite de segunda-feira, já se sabia que a estreia de Bellucci no ATP de Quito não seria transmitida pela TV. Pelo menos no Brasil. A expectativa – bem plausível por se tratar de um jogo na quadra central do torneio – era por algum stream. Nada feito. Restaria então o entediante ponto a ponto, sempre, o último dos recursos para quem veste a camisa do #TeamBellucci como a do clube do coração.

Já estávamos conformados, mas eis que a jornalista Ariane Ferreira (@arianeferreira) vasculhou um novo formato. Sem nenhuma imagem, mas repleto de emoção.

Por quase duas horas, foi possível sentir o calor da quadra central do ATP equatoriano, graças a um meio de comunicação mágico. Para muitos, o mais emocionante de todos. Com o auxílio da plataforma da internet, claro, acompanhamos o jogo pelas ondas da “La Red Ecuador”.

Pelo rádio.

Uma experiência incrível para um fã de tênis. Os sites oficiais dos Grand Slams costumam fazer esse tipo de transmissão (Australian Open e Roland Garros, com certeza), mas confesso que jamais havia experimentado o formato. E foi assim, com o sotaque espanhol pausado e macio do narrador, que o jogo ganhou vida.

Bem diferente das transmissões de futebol, o tom era quase de sussuro durante os pontos. As palavras saíam sem pressa, mas o ritmo era ágil o suficiente para descrever as trocas de bolas durante o ponto. Em certos momentos, narrador e comentarista não se continham. Do outro lado da rede, estava Gioavanni Lapentti. Equatoriano, 32 anos, irmão do ídolo nacional Nicolas Lapentti, ex-número 6 do ranking. Atual 307 do mundo, Gioavanni recebeu convite da organização para entrar na chave. Era a última esperança do país no torneio.

Depois de vencer o primeiro set por 6/3, Bellucci estendeu o segundo até o tiebreak. Foi o clímax da transmissão. Não bastasse a euforia da dupla narrador-comentarista, o barulho da torcida na quadra davam ainda mais vida à transmissão, despertando a imaginação de quem, a milhares de quilômetros, e deitado no sofá, mantinha o iphone colado ao ouvido. Como o velho radinho de pilha, outrora companheiro nos cantos da casa ou nas arquibancadas da vida.

O entusiasmo da transmissão aumentou quando Giovanni quebrou o saque de Bellucci logo no primeiro game do terceiro set. E depois confirmou. Com 2/0, bastava ao equatoriano vencer seus games de serviço para avançar à segunda rodada e manter o país vivo no torneio. A eliminação seria mais que um balde de água fria no início de temporada de Bellucci. Seria um campinhão-pipa congelado e despejado na cabeça de uma só vez. Até então, eram duas derrotas aceitáveis em 2015: em Auckland, para Jiri Vesely, que terminaria como campeão do torneio, e no Australian Open, para o espanhol David Ferrer, quando o brasileiro chegou a vencer o primeiro set antes de sofrer o apagão que lhe custou 12 games consecutivos.

Até por ter sido mais um jogo traumático, o de Ferrer, a vitória na estreia em Quito se fazia vital. E desta vez Bellucci reagiu. Com 0/2 no placar, confirmou o serviço e depois devolveu a quebra no game seguinte. Ele venceria mais quatro games seguidos para fechar o set em 6/2 e selar a vitória com um “pneu de ré”. O engraçado foi ver o ritmo da transmissão ir murchando como um balão de aniversário vai se esvaziando. Narrador e comentarista sentiram o golpe. Aos poucos, a narração foi se diluindo. Até o ponto final. Triste para eles, festejado por nós. A experiência de ouvir um jogo de tênis pelo rádio, torcendo, ficará na memória.

Nota: nesta quarta-feira, Bellucci encara o argentino Horacio Zaballos (124) na segunda rodada. Os outros dois brasileiros na chave foram eliminados: João Souza, o Feijão, caiu diante do colombiano Alejandro Falla, enquanto André Ghem perdeu para o dominicano Victor Estrella Burgos.

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